SOBRE UM NÃO ARGUMENTO DE CASTORIADIS CONTRA A SAGRADA FAMÍLIA DE KARL MARX E ENGELS
SOBRE UM NÃO ARGUMENTO DE CASTORIADIS CONTRA A
SAGRADA FAMÍLIA DE KARL MARX E ENGELS
Uma teoria tem valor
veritativo quando incorpora a teoria da argumentação, direta ou indiretamente. A
argumentação garante o horizonte de um debate fundado na dialética antiga, isto
é, na arte do diálogo. Inicialmente, há que verificar critérios de coesão
interna dos argumentos.
Cornelius Castoriadis
postula a tese de que a sociedade é feita por um conjunto originário de magma
simbólico, urdindo a trama em que egos e papéis sociais existem e se
consolidam.
Embora a palavra
simbólico, no debate brasileiro, tenha sido esvaziada e convertida em sinônimo
de ineficácia, não se pode negar o poder dos símbolos como vetor dos laços
societários e criador da realidade. O próprio sujeito, enquanto pólo de
atribuições, constitui-se de símbolos. Na linha lacaniana, o inconsciente é
linguagem.
A argumentação leva a
desvãos complexos, mas embarra no fato, salientado por Marx, que uma formação
social, originariamente, caracteriza-se pelo modo de produção. Um fato
diariamente confirmado. No mais, o ser humano, no contexto da teoria marxista,
é um ser natural dotado de forças naturais para produzir os meios de
existência. Hoje, parece uma verdade assustadora diante do poderio da
bancocracia.
Cornelius Castoriadis
atalha sobre a questão das lutas de classes e do papel que Marx atribui ao
proletariado.
Verbera que as afirmações
de A Sagrada Família são escatológicas e não merecem refutação. Escatológicas
no sentido de que apregoam um determinismo acendrado conferindo à classe
operária a função de suprimir as divisões de classes e construir o comunismo
como destino fatal, numa inexorabilidade histórica. Faltaria a Marx o
compreender do movimento histórico e, na medida em que destina à classe
operária um papel inexorável, não teria sentido histórico a teoria. Enfrentemos
os argumentos de Marx.
Marx não tergiversou em se declarar hegeliano e em ter incorporado a dialética hegeliana, mesmo invertendo-a. Portanto, o proletário significa o negativo da formação na medida em que tem sua humanidade perdida, em fainas e labutas prolongadas, embotando-lhes os sentidos, para produzir a mais-valia, como criação do nada para o burguês, de vida sentada, para citar Fernando Pessoa.
Mas o negativo não se converte em força material sem organização. Embora Marx afirme que o proletariado para realizar sua tarefa revolucionária precisa abolir a si mesmo, não ignora a força da ideologia e da inserção insegura ao regime de exploração: os bancos soltam dinheiro sem lastro; as distinções pairam num universo vaporoso, a cada dia ameaçando a ruir.
A distinção entre classe em si e para si, na linguagem
hegeliana, é crucial.
Marx atalha: a
questão não é o que configura a finalidade deste ou daquele operário, mas o que é
o proletariado e a tarefa que se lhe incumbe, na situação da sociedade.
Esclarecemos: longe de qualquer escatologia, Marx reinvidica a situação, ou
mais ainda, as condições para uma potência se afirmar. Nesse sentido, a
categoria de possibilidade é escatológica e até funesta em regimes
totalitários. A dialética é vincada à existência vital e analisa as condições
de um fenômeno.
Há, pois, movimento
na dialética marxista. Façamos um balanço histórico de acordo com nossas
últimas publicações. De nossa parte, observamos que:
1) Não
há luta de classes;
2) Há,
claramente, divisões de classe;
Na época do
desaparecimento da política, e da repressão social-política, seria escatológico
afirmar que há lutas de classes. As divisões são óbvias, um fato corriqueiro.
No mais, não obstante a força do simbólico, poderíamos lembrar Engels quando diz que o burguês afeito à imagem abstrata do ser humano como átomo e sem raiz histórica, a certa altura do dia, sente o estômago profano a reclamar comida.
Nesse caso, para o marxista, o dinheiro é de uma materialidade semiológica profunda. Onde está materialidade aqui? O dinheiro é semiologia pura e, numa época do fim da linguagem, para os bancos, pode perder as condições de ser dinheiro.
Por certo, convenhamos, alguém deve ter produzido e não foi um alto executivo nem um Buda isolado no seu bunker.
O marxismo, quando autêntico, é uma coisa quase que banal, ao nível do cotidiano. Lenin, numa entrevista, se dirigiu ao microfone como camarada; depois de um lapso de tempo, todos caíram na gargalhada. Até os lapsos marxistas são fabulosos.
Fontes
Cornelius
Castoriadis, Figuras do pensável. Civilização Brasileira, 2004.
LEGN, Do discurso
retórico da legalidade à construção societária da legalidade, CRV, Curitiba,
2024.
LEGN, Marxismo,
Arqui-Espaço e Agrimensuras críticas, CRV, Curitiba, 2024.
MARX E ENGELS, A
Sagrada Família, Centauro, 2005.
Comentários
Postar um comentário