AINDA MARX

Os poetas nos revelam o valor das palavras. Trazem à vista matizes de palavras que outrora não dávamos a devida força. Um dos últimos livros de Pablo Neruda chama-se Ainda (Aún). A presença do advérbio de tempo no título provoca várias reflexões. Ainda indica uma persistência, mas parecia ressoar ali um certo cansaço, uma confissão de que o tempo do poeta já tinha passado e que a sua ‘residência na terra’ já era excessiva e desnecessária. Existe esse tom melancólico de despedida no livro. Não obstante, vislumbra-se uma certa persistência, uma força que martela, que exige a continuação. Continuação que afasta toda ingenuidade edificante e exige um olhar corajoso quanto às dificuldades, às contrições que o tempo impõe.

Por isso, o ainda que o poeta, ele próprio comunista, desvelou serve de entrada para demonstrar a persistência de Marx. Jaques Derrida invoca os espectros de Marx a nos obsedar e, a despeito do esforço diuturno de conjurá-lo, na medida em que o nosso tempo é do contratempo, o luto não significa despedida, mas recriação. Mas que recriação?

Fazer o luto seria deixar que os mortos enterrem seus mortos ou uma forma de balanço crítico? A desconstrução não se mostra dúbia ao se deparar com uma tradição? Como discernir o que é velho e que é novo? O que persiste de Marx?

Para além do luto, a vigência de Marx vem do esforço de compreender uma obra inconclusa, repleta de lacunas e de contradições em rutilâncias crescentes.

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