PEQUENA SONATA A LUIS ALBERTO WARAT
PEQUENA SONATA A LUIS ALBERTO WARAT
“Perdão se quando quero
contar minha vida
é terra o que conto.”
Aún, Pablo Neruda
Os sobressaltos de uma obra, radicada numa vida perscrutadora
dos sentidos, não radicam na subjetividade do autor, por mais rica e prolífica
que lhe seja a vida e a sua vida, ramificada.
Como encontrar o liame entre o Warat clássico, aristotélico,
semiólogo, fino mestre dos enunciados, e o Warat iconoclasta, surrealista
epistêmico, buscando embaralhar as cartas, criando as disciplinas mais
inusitadas, criticando Descartes e a lógica? Como conciliar o gesto teatral das
aulas performáticas e os despachos do burocrata preocupado?
É difícil arranjar um vínculo.
Deveras, no sertão, a palavra
canga indicando o esforço, a dor, o sofrimento, a opressão, e a luta pela
produção mais rústica, de alegrias toscas que só se vê em Faulkner, fez-me pensar
naquilo que a semiologia moderna não tenha tematizado.
Não é força material dos discursos. Não são as ilusões que a
linguagem, quando encontra os eixos do poder, engendra e deixa o animal
simbólico perdido na loucura dos sentidos desconexos da alienação.
Talvez estivesse um pouco à frente demais, acompanhando a Europa, incorporando Foucault, Deleuze, Guattari, quando era necessário ser mais frugal, mais sóbrio, quase imperceptível, na leveza perdida de um Platão, poético e tenso demais para a lassidão moderna. Um contratempo estranho, como a poeira desértica dos versos de Neruda, e a crueza humana e terna dos poemas de Vallejo.
Não era apenas o egologismo que parecia coisa de antanho, um museu onde pudesse a curiosidade pousar sem compromissos mais vitais. Os termos marxistas - lutas de classes, proletariado etc- uma sensaboria, para nós, ainda que ser marxista fosse uma afirmação tranquila, em estado calmo, cristalino como um céu azul com algumas nuvens.
Às vezes peremptório excessivamente profligando que estava tudo desatualizado; às vezes, cordato demais quando era necessário ser crítico, mas, sobretudo, desconfiado, reservando a si uma solidão grande demais.
Lendo um poema de Pablo Neruda em que o deserto se povoa do
colonialismo, havemos de perguntar o que significa a palavra república no
contexto da América Latina. Um estado de coisas? Uma promessa? Uma injunção
deôntica?
Tudo tão misterioso a exigir a ciência e a poesia. Não há que estranhar as finuras que um pensamento possa alcançar. O vulto de Luis Alberto Warat assoma, mordaz e puro, sem força para ironizar porque lhe pungia o coração surrealista mesmo quando deveria ser cortante.
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